Qualquer
Arnaldo Antunes passou a adolescência ouvindo "Acabou Chorare", o histórico disco dos Novos Baianos, e sempre gostou de cantar em casa a delicada canção-título do álbum de 1972. Mas só agora encontrou o lugar certo para gravá-la: "Qualquer", seu novo CD. A opção ajuda a entender o disco que Arnaldo chama de "doce". É seu primeiro trabalho sem bateria, a sonoridade é dada por instrumentos de corda e um piano, todas as 14 músicas são suaves e as interpretações, intimistas. O ex-Titã nunca esteve tão distante do rock. "Às vezes acho que esse disco reflete uma maturidade, mas me recuso a pensar que cheguei a um formato no qual vou me sentar confortavelmente ou renegar o que eu fiz. Mudei minha atenção para privilegiar um aspecto que já havia no meu trabalho, mas que estava convivendo com outros, inclusive o lado mais pesado", relativiza. No texto para a imprensa, o cantor fala na "lição de João Gilberto", o que também torna interessante a escolha de "Acabou Chorare", dada a influência e a relação do mestre da bossa nova com os Novos Baianos. Arnaldo ressalta que, no seu caso, a influência é antiga. "João Gilberto era uma lição de interpretação que eu também usava quando estava berrando junto com os Titãs. A lição dele é de adequação, o que eu mais prezo em música. Não haveria adequação se cantasse nesse disco "Lugar Nenhum" [dos Titãs]. Quando você consegue interpretar com naturalidade, expressa ao máximo o que a letra está dizendo e sugere emoções que estão para além do que diz a letra", diz ele. Em "Qualquer", Arnaldo adota a naturalidade não só no sentido de adequação, mas de cantar da forma mais próxima possível da que fala. Ou seja, um canto grave. "É o meu registro de voz natural. Quando cantava com os Titãs, escolhia os tons todos altos, mas era para poder soltar o berro. Som pesado tem que ter volume", diferencia. Ele descobriu de que forma baixaria o volume ao gravar, no ano passado, "Hotel Fraternité" (poema do alemão Hans Magnus Enzensberger que musicou) para o filme "Achados e Perdidos", de José Joffily. A canção foi refeita para "Qualquer", mas com o mesmo estilo que deu conceito ao CD: instrumentos de cordas -nas mãos de Cézar Mendes, Chico Salem, Dadi e Edgard Scandurra- e o piano de Daniel Jobim. Tudo foi gravado em três dias em um estúdio do Rio, com todos tocando ao mesmo tempo, como se fosse ao vivo. "O fato de eu fazer um disco com uma sonoridade mais restrita, sem apontar para muitos lados, talvez seja maturidade não por chegar a esse formato, mas por ter chegado ao desejo de fazer um disco com um formato", avalia Arnaldo. Invertendo o caminho habitual, ele buscou no seu repertório músicas que cabiam no conceito sonoro. Gravou pela primeira vez "Eu Não Sou da Sua Rua", parceria com Branco Mello que Marisa Monte lançou em 90, "As Coisas", parceria com Gilberto Gil do disco "Tropicália 2" (93), e "Lua Vermelha", canção sua e de Carlinhos Brown interpretada por Bethânia no disco "Âmbar" (96).
(sergio fonte Folha de S. Paulo - Por Luiz Fernando Vianna )
Escrito por discotekacds@gmail.com às 20h32
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